Poucas coisas mudam tanto a personalidade de uma guitarra quanto um pedal.

Às vezes, o guitarrista está com o mesmo instrumento e o mesmo amplificador, mas basta entrar um overdrive, um chorus ou um delay para a música ir para outro lugar completamente diferente.

E talvez seja justamente isso que torna o universo dos pedais tão interessante. Eles não servem apenas para “colocar efeito”. Eles ajudam a construir linguagem, dinâmica, ambiente e identidade.

Quando se fala nisso, a Boss ocupa um espaço enorme. A marca lançou sua série de pedais compactos em 1977 com o OD-1 Overdrive, PH-1 Phaser e SP-1 Spectrum. Desde então, mais de 130 modelos foram produzidos e mais de 18 milhões de unidades vendidas, segundo a própria Boss. O formato compacto colorido acabou se tornando praticamente uma referência visual do que é um pedal de guitarra.

Mas, para quem está começando, olhar uma fileira de pedais Boss pode gerar mais dúvida do que inspiração.

Overdrive e distortion não são a mesma coisa?

Para que serve compressor?

Chorus e flanger fazem o quê?

Delay e reverb precisam estar juntos?

E quantos pedais alguém realmente precisa?

Acho mais interessante começar por aí do que simplesmente tentar decorar modelos.

Antes dos pedais, existe o som da guitarra

Todo pedal trabalha sobre um sinal que já existe.

Guitarra, captadores, amplificador, regulagem e até a forma de tocar continuam fazendo parte do resultado.

Por isso, pedal não deveria ser visto como uma forma de “consertar” qualquer timbre. Ele funciona melhor quando entra como ferramenta para transformar algo que já está acontecendo.

Às vezes, você quer mais ganho.

Às vezes, quer sustentar uma nota por mais tempo.

Às vezes, quer criar sensação de espaço.

Em outras situações, quer simplesmente apertar um botão e sair de uma base limpa para um refrão muito maior.

É essa intenção que ajuda a entender qual efeito faz sentido.

Overdrive, distortion e fuzz: três formas diferentes de sujar o som

Talvez essa seja a família que mais chama atenção de quem começa a montar um pedalboard.

Os três trabalham com saturação, mas não entregam exatamente a mesma coisa.

Overdrive

O overdrive normalmente parte de uma saturação mais próxima do comportamento de um amplificador sendo exigido.

Pode ser leve, servindo apenas para dar mais corpo e presença, ou trabalhar com uma quantidade maior de ganho.

Dentro da Boss, o SD-1 Super OverDrive é um dos exemplos mais clássicos dessa proposta. A linha atual também mantém o BD-2 Blues Driver, que vai de um boost mais limpo até uma saturação mais agressiva e responde bastante à dinâmica da palhetada e ao volume da guitarra.

Esse tipo de efeito pode servir tanto como drive principal quanto para empurrar um amplificador ou outro pedal de ganho.

Distortion

Quando a ideia é uma saturação mais evidente, comprimida e agressiva, a distortion começa a ganhar espaço.

E aqui é impossível falar de Boss sem citar o DS-1.

Lançado em 1978, ele foi o primeiro pedal de distortion da Boss e se transformou no pedal compacto mais vendido da história da marca. O DS-1 segue em produção e acabou virando um daqueles pedais que atravessam gerações.

Já quem busca ainda mais ganho encontra propostas como o MT-2 Metal Zone, além de versões Waza de alguns desses clássicos.

Fuzz

O fuzz vai mais longe na transformação.

Ele tende a produzir uma saturação mais áspera, comprimida e, dependendo do ajuste, quase “quebrada”.

É uma linguagem muito ligada a rock clássico, psicodelia, garage e várias vertentes mais experimentais.

Dentro da linha Waza, por exemplo, a Boss mantém o FZ-1W, que leva essa proposta de fuzz vintage para a abordagem premium da marca.

Não é uma questão de um efeito ser mais pesado que o outro. São maneiras diferentes de trabalhar saturação.

E o booster? Às vezes você não quer distorcer, só aparecer mais

Esse é um efeito simples de entender e muito útil.

O booster aumenta o nível do sinal.

Isso pode servir para destacar um solo, empurrar o amplificador para saturar mais ou mudar a forma como outros pedais respondem.

É um daqueles efeitos que parecem menos interessantes na vitrine, porque não necessariamente fazem um som completamente novo.

Mas, dentro de um setup, podem resolver muita coisa.

A Boss também trabalha essa categoria separadamente, incluindo opções de booster, preamp e equalização.

Chorus: quando uma guitarra parece ficar maior

Chorus é um dos efeitos mais fáceis de reconhecer depois que você aprende a ouvir.

Ele cria pequenas variações no sinal que dão a impressão de existir mais de uma fonte tocando ao mesmo tempo.

O resultado pode ser muito discreto ou bastante evidente.

É aquele tipo de efeito que aparece em clean de pop, rock dos anos 1980, worship, funk e em várias bases em que se busca mais largura e movimento.

A história da própria Boss é muito ligada ao chorus. O CE-1 Chorus Ensemble, lançado em 1976, antecedeu inclusive a famosa série de pedais compactos. Hoje, modelos como o CE-5 Chorus Ensemble continuam essa linguagem, enquanto o CE-2W recupera timbres históricos dentro da linha Waza Craft.

Phaser, flanger, vibrato: quando o som começa a se movimentar

Esses efeitos entram no grupo das modulações.

De forma simples, eles fazem o som parecer se movimentar de diferentes maneiras.

O phaser cria aquela sensação de varredura, bastante reconhecível em guitarra limpa e também em riffs com drive.

O flanger trabalha com uma textura mais metálica e pronunciada, criando um efeito que pode lembrar uma espécie de movimento de avião ou jato, dependendo do ajuste.

Já o vibrato trabalha a variação de afinação do sinal.

Na linha Boss, essa família inclui pedais como BF-3 Flanger, além de opções Waza como VB-2W Vibrato e DC-2W Dimension C.

Aqui começa uma parte muito divertida dos pedais: pequenas mudanças de regulagem podem levar o efeito de quase imperceptível a completamente dominante.

Delay: repetir também pode criar música

Delay é basicamente uma repetição do sinal original.

Só que dizer apenas isso não faz justiça ao que dá para fazer com ele.

Um delay curto pode engrossar a guitarra.

Um delay sincronizado com a música pode fazer parte do próprio riff.

Repetições longas podem criar texturas e ambiências.

Com bastante feedback, o efeito começa praticamente a se transformar em uma camada musical própria.

A Boss tem uma relação histórica muito forte com delay, e os modelos da família DD se tornaram bastante conhecidos.

O DD-8, por exemplo, reúne diferentes tipos de delay, incluindo digital, analog, tape, modulation, reverse e outros modos, além de operação estéreo e função de loop.

Isso mostra bem como um pedal que parece ter uma função simples pode acabar cobrindo uma quantidade enorme de situações.

Reverb: colocar a guitarra dentro de um espaço

Se o delay trabalha com repetições perceptíveis, o reverb normalmente trabalha com a sensação do ambiente.

É como se você pudesse escolher em que tipo de espaço aquela guitarra está tocando.

Um reverb pequeno pode apenas tirar o som daquela sensação muito seca.

Um hall maior pode deixar solos e partes lentas muito mais amplos.

E efeitos mais modernos conseguem criar ambientes quase irreais.

O RV-6, por exemplo, trabalha com diferentes tipos de reverb, indo de Room e Hall até opções como Shimmer e Delay+Reverb.

Para mim, delay e reverb são dois efeitos que mostram muito bem como pedal não precisa ser necessariamente sobre distorcer o instrumento.

Às vezes, a maior mudança está no espaço ao redor da nota.

Compressor: o pedal que muita gente demora para entender

Esse é um daqueles efeitos menos óbvios.

Você liga um distortion e percebe imediatamente.

Liga um chorus e percebe.

Com compressor, às vezes a diferença é mais sutil.

Ele trabalha a dinâmica do sinal, reduzindo a diferença entre partes mais fortes e mais fracas.

Isso pode trazer mais consistência, sustain e controle.

É muito utilizado em clean, funk, country e em situações em que se quer uma resposta mais uniforme da guitarra.

A Boss mantém compressores na família Dynamics/Filter, incluindo o CP-1X, que utiliza processamento MDP da marca.

Compressor é um bom exemplo de pedal que talvez não impressione tanto nos primeiros cinco segundos, mas pode se tornar importante quando o músico começa a prestar mais atenção à dinâmica.

Afinador também é pedal

E talvez seja um dos pedais mais úteis de todos.

Em palco, ter um afinador no chão permite conferir o instrumento rapidamente e, normalmente, silenciar o sinal durante a afinação.

O TU-3 é um dos produtos mais conhecidos dessa categoria. A Boss destaca justamente afinação rápida, visor de alta visibilidade e função de mute para afinar silenciosamente no palco.

Não muda seu timbre.

Não cria ambiência.

Não aumenta o ganho.

Mas guitarra desafinada com pedal caro continua sendo guitarra desafinada.

Preciso de todos esses efeitos?

Não.

E acho que essa é uma das partes mais importantes para quem está começando.

O primeiro pedalboard não precisa parecer a nave espacial de um guitarrista profissional.

Dá para começar com muito pouco.

Imagine alguém que toca rock e usa um amplificador clean. Um drive ou distortion já pode mudar completamente as possibilidades.

Depois, talvez entre um delay.

Um afinador.

Algum tipo de modulação, se fizer sentido para o repertório.

E o pedalboard cresce a partir daquilo que realmente começa a fazer falta.

Comprar dez pedais de uma vez pode até ser divertido, mas aprender bem o que cada um faz normalmente é muito mais útil.

Qual seria uma boa primeira sequência?

Isso depende do estilo, mas existe uma lógica básica que ajuda bastante a começar.

Uma cadeia simples poderia ser:

Guitarra → afinador → compressor → overdrive/distortion → modulação → delay → reverb → amplificador

Mas isso não é lei.

Trocar a ordem dos pedais também muda o resultado.

Um chorus antes do drive pode responder de uma forma.

Depois do drive, de outra.

Delay antes da distorção pode ficar bastante diferente de delay depois dela.

É justamente aí que o pedalboard deixa de ser apenas uma coleção de produtos e passa a virar parte da criação do guitarrista.

E o loop de efeitos do amplificador?

Aqui entra uma dúvida muito comum conforme o setup começa a crescer.

Alguns amplificadores possuem send e return, formando o chamado loop de efeitos.

Ele permite colocar determinados pedais depois da seção de pré-amplificação do amplificador.

Isso pode ser especialmente útil para delay e reverb quando o guitarrista utiliza bastante o drive do próprio amplificador.

Em vez de mandar as repetições para dentro da distorção do pré, você pode colocar esses efeitos depois dela.

De forma bem simples:

guitarra → pedais de ganho → entrada do amplificador

e

send → modulações/delay/reverb → return

Não existe uma obrigação de montar assim, mas entender o loop abre outra possibilidade de organização.

Pedal individual ou pedaleira?

Essa discussão aparece inevitavelmente.

Pedais individuais têm uma experiência muito direta.

Você olha para o pedal, vê os controles, gira um knob e sabe o que está fazendo.

Além disso, você consegue montar o sistema peça por peça, escolhendo exatamente quais efeitos quer.

Pedaleiras e processadores entregam outra proposta: concentram muitos efeitos, memórias, roteamentos e recursos em um único equipamento.

A própria Boss trabalha fortemente nos dois universos.

Não vejo um como substituto obrigatório do outro.

Tem guitarrista que ama montar pedalboard.

Tem guitarrista que prefere carregar uma única pedaleira.

E tem muita gente que mistura os dois.

O formato Boss acabou virando parte da história

Existe uma coisa curiosa nos pedais compactos Boss.

Você bate o olho e reconhece.

A carcaça metálica, o grande pedal de acionamento, os knobs na parte superior e as cores diferentes para cada proposta acabaram criando uma identidade visual muito forte.

Esse formato nasceu com os compactos de 1977 e atravessou décadas praticamente como uma linguagem própria da marca.

É difícil encontrar outro produto de áudio ou instrumento em que simplesmente dizer “o pedal amarelo”, “o laranja” ou “o azul” possa imediatamente trazer um modelo à cabeça de tanta gente.

E o que é Waza Craft?

Quando alguém começa a olhar o catálogo Boss com mais atenção, vai encontrar versões com um pequeno “W” no nome.

É a linha Waza Craft.

A proposta é revisitar pedais clássicos e outros circuitos da Boss com construção e sonoridade premium, muitas vezes acrescentando modos ou possibilidades além do pedal original.

Hoje existem versões Waza de modelos como SD-1, BD-2, DS-1, MT-2, CE-2 e DM-2, entre outros.

Para quem está começando, isso não significa que seja obrigatório ir direto para a versão Waza.

O interessante é perceber que alguns desses circuitos se tornaram tão importantes para a história da marca que continuam sendo revisitados décadas depois.

Como escolher o primeiro pedal Boss?

Eu começaria pela música, não pelo catálogo.

Qual som você sente falta quando está tocando?

Se o amplificador está limpo demais e você quer rock, provavelmente a conversa começa em overdrive ou distortion.

Se o som já está bom, mas parece muito seco, talvez delay ou reverb façam mais sentido.

Se você gosta daquela guitarra larga e movimentada de determinados cleans, pode ser chorus.

Se toca ao vivo, um afinador pode ter mais utilidade prática do que um efeito completamente novo.

E, se você ainda não consegue dizer exatamente o que está faltando, vale ouvir exemplos, testar e prestar atenção nas músicas que você gosta.

Muitas vezes, o pedal que você está procurando já está naquela gravação que fez você querer tocar guitarra.

Onde a Ninja Som entra nessa história

Pedal é um produto especialmente divertido de comparar.

Porque, ao contrário de uma especificação que você lê e pronto, um efeito precisa ser ouvido e sentido tocando.

Na Ninja Som, trabalhamos com diferentes pedais e equipamentos Boss, desde modelos que já se tornaram clássicos até soluções mais modernas da marca. A página da Boss na Ninja reúne atualmente pedais, processadores e outros equipamentos da fabricante.

E, nas lojas físicas, quando existe a oportunidade de ligar guitarra, amplificador e alguns pedais diferentes, muita coisa que parecia complicada na descrição começa a fazer sentido em poucos minutos.

Você entende rapidamente a diferença entre um overdrive e uma distortion.

Percebe o que o chorus faz.

Descobre se realmente gosta de muito reverb ou prefere algo mais discreto.

E começa a montar o som com o ouvido, não apenas com a ficha técnica.

Conclusão

Os pedais Boss fazem parte da história da guitarra não porque existe um único efeito que serve para todo mundo, mas justamente porque a marca construiu ferramentas para formas muito diferentes de tocar.

Tem quem queira apenas um pouco mais de drive.

Tem quem construa músicas inteiras em cima de delay.

Tem quem nunca desligue o chorus.

Tem quem precise apenas de um afinador e uma boa distortion.

E tem quem transforme o pedalboard praticamente em outro instrumento.

No fim, talvez essa seja a parte mais legal de entrar no universo dos pedais: você não precisa descobrir todos de uma vez.

Comece entendendo o som que você já tem. Depois pense no som que está sentindo falta.

O pedal certo normalmente aparece no espaço entre essas duas coisas.

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Michel Dergham

Sobre o Autor

Michel Dergham

🎧Apaixonado por música, audiófilo e diretor de operações da Ninja Som – Empresa varejista especializada em equipamentos de áudio profissional e instrumentos musicais. 🥷 Há mais de 20 anos no mercado, conectando músicos, DJs, igrejas, estúdios e profissionais do áudio com as melhores marcas do mercado.

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